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De Prestes a Brizola: por que generais bolsonaristas ofendem a democracia?

Por Informe News em 22/07/2021 às 20:11:20

REUTERS/Adriano Machado

Braga Netto, Ramos, Heleno, Pazuello e Mourão cresceram como oficiais do Exército à luz da democracia. No auge da ditadura, eram jovens cadetes e viviam na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Chamavam de "mundo de fora" o que ocorria além do muros da Aman. A repressão do regime militar, portanto, acontecia no que o general Villas Bôas batiza de "mundo exterior". Como se fossem dois universos distintos.

Ao cruzarem os muros da Aman, essa geração viveu um conturbado, mas rico período político, com respeito ao que é mais sagrado à democracia: a alternância de poder. Toda a trajetória profissional do grupo --os cursos, as possibilidades de crescimento profissional, as designações para postos no exterior e missões internacionais-- ocorreram durante governos de direita (Sarney, Collor), de centro (Itamar, Fernando Henrique) ou de esquerda (Lula e Dilma). Podem empurrar um presidente mais para a direita, para a esquerda, tirá-lo do centro, mas nunca colocá-los nos extremos.

A esses generais, portanto, estava destinada a marca da "Geração Democracia". Uma geração que só colocou os pés fora do quartel quando convocados pelo poder civil. Como manda a Constituição. Entre 1992 e 2017, as Forças Armadas realizaram 132 operações semelhantes ao que hoje chamamos de missões de Garantia da Lei e da Ordem. Ou seja, em 25 anos de democracia, os militares foram chamados a uma média de cinco vezes por ano para proteger eventos (29%), por conta de greves de PMs (19%), para conter violência urbana (18%), garantir eleições (15%) e outros motivos (19%) não tipificados por um estudo do Ministério da Defesa.

Era a geração das missões internacionais de paz e não da guerra suja da ditadura. O blog repete: 20 operações das Forças Armadas para garantir eleições livres, limpas e seguras, a maioria com urnas eletrônicas, nunca contestadas. Tudo caminhava para um desfecho de virtude democrática até o surgimento do projeto Bolsonaro 2018. Então, uma parcela desta geração formada na Aman na década de 70 aderiu a um projeto extremista. Generais do Exército de Caxias aceitaram exercer o papel de generais do Exército de Bolsonaro. O Exército que Bolsonaro chama de seu. E por que?

A resposta

A resposta virá com o tempo e será dada por pesquisadores e historiadores. Mas o blog, reforçando a vocação Polaroid do jornalismo de contar e refletir sobre a história ainda em andamento, tentará ajudar a iluminar a questão.

Antes de abordar o aspecto ideológico, é bom falar em poder e dinheiro. Aliás, quem fala nisso é próprio Bolsonaro. Em discurso a comandantes militares em São Gabriel da Cachoeira, em maio deste ano, Bolsonaro deu a entender que a mesma lógica do Centrão político atrai o Centrão fardado. "Proporcionalmente, temos mais ministros militares que naquele período de 64 a 85", calculou Bolsonaro. Qual presidente de partido do Centrão não gostaria de ouvir tal generosidade? Os comandantes militares presentes ao encontro não reclamaram. Afinal, são seis mil cargos no governo federal ocupados por militares. No "mundo exterior", o nome disso é boquinha. No mundo militar, este universo à parte, eles chamam de " missão patriótica".

A busca do Centrão fardado por poder e cargos começou ainda no governo Temer. Braga Netto, depois de interventor federal no Rio de Janeiro, acertou o cargo de futuro secretário de Segurança com o então candidato Eduardo Paes. Não deu certo porque Paes foi derrotado por Wilson Witzel. Pazuello também aproveitou a intervenção federal em Roraima para se alçar ao cargo de secretário estadual de Fazenda, exercido entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Ou seja, já havia apetite dos generais bolsonaristas por poder e cargos antes mesmo da chegada do capitão ao poder.

Agora, passemos à ideologia. Mergulhamos na entrevista que o pesquisador Celso Castro, da Fundação Getulio Vargas, fez com o ex-comandante do Exército Villas Bôas, considerado uma bússola para a geração formada na Aman na década de 70. O professor Celso pergunta:

"No Brasil, vivia-se o governo Médici, que por um lado teve o milagre econômico, mas, por outro lado, foi, politicamente, o governo mais fechado, mais repressivo. Os senhores acompanhavam esse cenário nacional?"

Villas Bôas não condena a ditadura e dá uma longa explicação para justificar o golpe. Ele começa pela Intentona Comunista. Diz que os militares à época do golpe "tinham ainda na memória a Intentona Comunista", levante militar comandado pelo líder comunista Luis Carlos Prestes. Depois, Villas Bôas passa para a Guerra Fria, que segundo ele "nunca foi estudada em profundidade" e chega a Brizola. Conta que seu pai, ao sair de casa para ajudar no golpe de 64, deu um revólver para a esposa (mãe de Villas Bôas) e avisou: "Não abra a porta, porque meu nome está nas listas do Grupo dos Onze do Brizola para ser mandado ao paredão".

Não por acaso, o capítulo do livro que aborda o golpe de 64 leva o título "Anticomunismo". Logo abaixo, vem em destaque a frase de Villas Bôas: "Tive uma influência de casa: meu pai".

E por que este detalhe familiar é importante? Porque, cada vez mais, na formação de militares brasileiros há o que professor Celso de Castro chama de "recrutamento endógeno". Ou seja, militar é filho de militar, cresce numa família militar e vivencia códigos militares. Quando sai de casa, é para frequentar colégios militares e estudar em regime de internato na academia. As histórias, os medos, os fantasmas, os traumas são passados de geração para geração. Brizola, que nunca matou ninguém no paredão, e teve uma longa participação na vida democrática antes e depois do golpe, ainda é uma fantasma, bem como Prestes.

O tal "recrutamento endógeno" de militares tem aumentado, ainda segundo o estudo de Castro. Na década de 40, os filhos de militares representavam 20% dos cadetes. Em 1993, este número chega a um pico de 60,4%. Ou seja, o mundo civil, o mundo exterior oxigenava muito mais os meios militares do que ocorre atualmente. "De um ponto de vista sociológico, seria equivocado falar em uma casta militar" escreve Castro, para completar: "O mundo civil, nesse contexto, corre o risco de tornar-se quase que uma peça de ficção"

Só para ter uma ideia, desta geração, além de Villas Boas são filhos de militares (em parênteses o ano de formatura de cada um): Heleno (1969); Etchegoyen (1974); Mourão (1975); Fernando Azevedo e Silva (1976); Ramos (1979). Já Santos Cruz (1974) e Pujol (1977) são gaúchos filhos de oficiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Também militarizados.

Mais que um problema de currículo das academias militares, tese apontada por setores da esquerda para explicar o viés autoritário da formação militar brasileira, está a discussão sobre diversidade. O mundo civil cada vez "oxigena" menos o pensamento militar.

Este blog falou de poder, cargos e anticomunismo anacrônico (ou mesmo oportunista) para tentar explicar a conversão de alguns militares ao extremismo bolsonarista. O fato é que hoje eles batem continência para o mau soldado que um dia foi considerado indigno para permanecer no Exército. O de Caxias. A História julgará esses generais que cresceram na democracia, mas que hoje a ofendem.

Fonte: G1

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